C | TERCEIRO PASSO

Terceiro Passo – Seminário Visão de Futuro

A segunda tarefa da Equipe de Articulação – que atua como Coordenação do Projeto – é realizar o Seminário Visão de Futuro. Esse seminário deverá ser feito em no mínimo 8 horas de trabalho em uma oficina especialmente dedicada ao assunto.

Nessa oficina, usando métodos participativos já largamente testados em iniciativas de desenvolvimento local, os participantes serão estimulados a sonhar um futuro desejado para a localidade tendo como horizonte estratégico o prazo de 10 anos.

É a partir desse seminário que será plantada a semente de uma comunidade de projeto em cada localidade. Uma vez elaborada participativamente uma visão de futuro coletiva pela Equipe de Articulação em cada localidade, esse sonho de futuro será compartilhado com a Rede do Desenvolvimento Comunitário respectiva para ser validado.

É aconselhável que esse trabalho seja feito pela Equipe de Articulação ampliada com a participação de mais pessoas já conectadas à rede (umas vinte pessoas é um bom número).

Em termos de planejamento o futuro vem antes do presente e a análise da situação presente é condicionada pela visão de futuro – filtramos a realidade a partir das nossas expectativas e, assim, pelo menos em parte, vemos o que queremos ver. Para realizar este terceiro passo, devemos usar atividades que estimulem trazer à tona os sonhos individuais e, depois, a construção coletiva do futuro, do sonho coletivo.

ORIENTAÇÕES PARA O SEMINÁRIO DE VISÃO DE FUTURO

Momento 1 – Peça que cada participante faça o seguinte exercício: “Em 10 anos a sua localidade será o lugar mais desenvolvido do mundo, o melhor lugar do mundo para se viver. Descreva como ela será”.

Momento 2 – Divida os participantes em grupos de 5 pessoas e peça que cada grupo realize o seguinte exercício: “A localidade deste grupo de pessoas será o lugar mais desenvolvido do mundo, o melhor lugar do mundo para se viver daqui a 10 anos. Como ela será?”

Cada grupo constrói uma cidade que é uma síntese dos sonhos individuais. É importante não excluir sonhos. O resultado de cada grupo deve ser descrito de maneira que os demais grupos possam visualizar esse futuro. Pode-se usar um cartaz ou um painel para registrar as apresentações.

Momento 3 – Após a apresentação dos grupos, os participantes devem construir um único painel, retratando a síntese de todos os sonhos. Como fazer isso? Sugere-se construir um painel novo, que nunca será igual a uma simples colagem dos cartazes de cada grupo.

Momento 4 – Debate sobre o resultados alcançados. Algumas perguntas orientadoras que podem animar tal debate: por que é importante projetar o futuro? Como incluir todos os sonhos? Por que o sonho de viver bem se confunde muitas vezes com meros sonhos de consumo? Esse futuro projetado pode ser alcançado?

Momento 5 – Conclusão. A tarefa deste primeiro seminário estará concluída quando as pessoas puderem dizer o que acontecerá no futuro como se estivessem contando uma história. É a história do futuro.

A história que você conta é a vida que você constrói. À medida que mais e mais pessoas contarem e repetirem a mesma história ela começará a acontecer (Elizabeth Cogburn, em um programa de radio da WBAI de Nova Iorque, que foi ao ar no início de maio de 1995, disse assim: “A história que você conta a si mesmo é a vida que você constrói. Escolha sabiamente a sua história. À medida que você conta a história, ela começa a acontecer”).

O produto concreto desse trabalho é um texto contando a “história do futuro” da localidade. Esse texto deve caber em menos de uma página.

Depois disso, é necessário validar, na Rede do Desenvolvimento Comunitário, a Visão de Futuro que resultou do trabalho.

VALIDAÇÃO DA VISÃO DE FUTURO NA REDE

Os participantes do Seminário Visão de Futuro terão a tarefa de procurar – de preferência pessoalmente – os conectados à Rede do Desenvolvimento Comunitário, levando um formulário com os seguintes elementos:

Resumo da “história do futuro” em meia página.

1 – Você concorda com essa Visão de Futuro para a sua localidade?

____ SIM

____ NÃO

2 – O que você gostaria de acrescentar (em termos do você gostaria que a sua localidade tivesse ou fosse daqui a dez anos, ou seja, em 2017)?

O resultado dessas consultas devem ser tabulados e sistematizados. A Equipe de Articulação fará então uma reunião para consolidar a visão validada pela rede.

NOVA VISÃO DO PASSADO

Com a Visão de Futuro validada, a Equipe de Articulação ampliada – com as mesmas pessoas que fizeram o Seminário Visão de Futuro – vai se reunir novamente para (re)rever o passado daquela localidade. Vai então tentar buscar, no passado, as sementes que, uma vez germinadas, poderão florescer como elementos constantes do futuro desejado.

Existe uma maneira bem prática de fazer isso, construindo uma linha do tempo, contendo o futuro e o passado e situando o hoje no passado. Trata-se de descobrir os drives, os fatores impulsionadores que poderiam ter sido dinamizados para produzir o futuro-antes da hora (como não foram, trata-se então de dinamizá-los a partir de agora). Isso pode ser, por exemplo, recuperar uma tradição que está fenecendo (um artesanato de raiz, por exemplo, que ficou restrito à memória de uma pessoa). Ou pode ser recuperar os conhecimentos relativos a um empreendimento que já funcionou na localidade e que hoje não está mais em atividade. Em suma, o trabalho é escolher no passado tudo o que pode ajudar a alcançar o futuro almejado, construindo então uma nova linha do tempo. A linha do tempo completa deverá ser apresentada à Rede de Desenvolvimento Comunitário.

 

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO

24 – A Visão de Futuro não deveria vir depois do Diagnóstico?
a) Sim, isso seria o mais lógico, pois conhecendo os seus carecimentos e potencialidades, uma localidade poderia projetar melhor o seu futuro.
b) É comum nos processos de indução do desenvolvimento local o trabalho começar logo pelo diagnóstico das potencialidades, em geral pelas potencialidades econômicas da localidade enfocada. No entanto, a experiência mostrou que esse não é um bom caminho, porque a identificação dos ativos ou o levantamento das potencialidades existentes, bem como das necessidades e dos problemas e obstáculos ao desenvolvimento, depende da posição, da perspectiva e do conceito de si do observador, sobretudo quando esse observador é coletivo.
c) Não, uma coletividade que não vislumbrou um futuro novo tenderá a ver, no seu diagnóstico da realidade, aquilo que é indicado pelas opções tradicionais; por exemplo, em um pequeno município do interior tenderá a ver, apenas ou principalmente, as potencialidades latentes ligadas à agricultura ou à pecuária, ignorando outros “tesouros” escondidos em virtude da falta de uma visão de futuro que “puxe” o presente ou impeça que esse presente repita o passado.
d) Não, uma comunidade que não vislumbrou um novo futuro desejado, tenderá a ver como necessidades, que parecem sempre exigir o aporte de recursos exógenos, carecimentos que poderiam ser satisfeitos pela dinamização de ativos humanos e sociais que já possui, mas que não consegue identificar por falta de consciência de suas próprias potencialidades (o conceito de si), sendo assim levada a repetir as formas tradicionais pelas quais tais carecimentos costumavam ser satisfeitos “de cima” ou “de fora”.
e) Nenhuma das alternativas anteriores.

25 – Qual o principal objetivo da Visão de Futuro?
a) Construir um caminho para o futuro, que é o caminho do seu desenvolvimento.
b) Começar a formar uma comunidade de projeto, e nenhuma comunidade se forma sem compartilhar um futuro comum.
c) Chegar a um (novo) presente (isto é, a um presente que não seja repetição de passado) e, para tanto, é necessário, antes, passar pelo futuro. Se quisermos alterar alguma coisa no presente, temos que fazer uma viagem de ida e volta ao futuro.
d) Formar uma comunidade de projeto, mas nenhuma comunidade se forma sem recontar (ou reinterpretar) o seu passado. A leitura que uma coletividade qualquer faz do seu passado é determinante para indicar se essa coletividade atingiu ou não o status de comunidade de projeto. Em outras palavras, o passado deve ser (re)visto de uma determinada forma para produzir o futuro almejado (um futuro alternativo à repetição do passado no presente). Nele devem ser plantadas as sementes da alternativa que queremos ver florescer no futuro (ou, se quisermos usar uma imagem poética, nele deve ser implantada a “lenda” que se tornará realidade).
e) Todas as alternativas anteriores.
f) Nenhuma das alternativas anteriores.

26 – Por que o Seminário Visão de Futuro deve também contemplar uma (re)Visão do Passado?
a) Quem disse que deve? Isso é uma esquisitice da metodologia adotada. O passado já passou e nada do que fizermos poderá alterá-lo (a menos que acreditemos na máquina do tempo ou nas ficções de Hollywood, do tipo das que foram usadas nos filmes “De volta para o futuro” ou “Em algum lugar do passado”).
b) Porque não basta imaginar e desejar um futuro melhor para antecipá-lo por meio de ações concretas. É necessário também modificar o passado. Isso não significa inventar uma mentira sobre o passado. Mas significa que, se a visão do passado não for mudada, o velho passado, que está na cabeça das pessoas, vai ficar lá o tempo todo influenciando o seu comportamento. Porque o velho passado – que se chama tradição – é algo muito, muito mais poderoso do que imaginamos.
c) Porque para traçar o mapa do caminho para o futuro desejado é necessário, ao contrário do que se acredita, planejar o passado e contar a história do futuro. Em geral as pessoas fazem o inverso: querem contar a história do passado e planejar o futuro. Mas, ao contar a história do passado, qual a história que se conta? Aquela história que, ao divulgar uma determinada visão do passado, repete esse passado. Isso vai influenciar, decisivamente, o planejamento do futuro. Por mais que queiramos, se o velho passado se repetir, o futuro planejado não passará de uma continuidade com essa visão do passado.
d) Porque ao planejarmos o passado à luz de um novo futuro, imaginado sem comprometimento com a visão tradicional do passado, poderemos começar a contar uma história diferente do futuro. A história que você conta é a vida que você constrói. Se você começa a contar uma história diferente, alguma coisa diferente vai acontecer. Para fazer um mapa do caminho para um futuro diferente é preciso imaginar que esse futuro já existe e que se trata, tão somente, de antecipá-lo. Isso significa criar um novo futuro.
e) Nenhuma das alternativas anteriores.

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